segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Cova da Onça

No livro "Valença de Ontem e de Hoje" do escritor valenciano Leoni Iório, encontrei esse bela lenda: "Numa garganta, ao sopé da Serra dos “Mascates”, havia uma furna de aspecto feio, habitada por um enorme jaguar, terror da redondeza, de onde a denominação local: Coiareté — Cova da Onça (de Co-cova, e Iauareté-jaguar). Consertava-se o meio de eliminar aquele perigo, quando um velho e respeitoso Coroado, indiferente a qualquer risco, porque, como diziam, nunca se vira desamparado por Tupan, mete-se um dia na furna, com toda naturalidade. Era de mais: um suicida, talvez. À noite, porém, com surpresa geral, a fera vem chegando, e ao pressentir algo de estranho, pára perto da furna, enfurece, avança e recua, e, por fim, soltando um urro doloroso, desaparece na mata, para sempre. Ante mais esse fato, não podia restar dúvida: o silvícola tinha poderes sobrenaturais que o protegiam. E firmou então os seus créditos de guarda tutelar do Bem, a cuja simples aproximação o Mal se retirava. Daí, por diante, generalizou-se a crença de que toda a extensão em frente à furna, até onde alcançasse o olhar benfazejo do índio, estava livre de espíritos mal formados. Arnaldo Nunes transpõe esta lenda, para o seguinte poema:



COVA DA ONÇA

Dizem que ao sopé daquela serra havia,
No grande resplendor da natureza,
Uma furna tristíssima e sombria,
Justo terror de tôda a redondeza.

E’ que, mais de uma noite, à luz tranqüila
E solene do luar, vira o selvagem
O forte reluzir de uma pupila
Entre o lindo veludo da folhagem:
—Pupila que o jaguar fixa na lua,
Quando pela amplidão, régia, flutua.

Mesmo assim, ao perigo indiferente,
Cena vez, um Coroado -— alma guiada
Por Tupan, como cria tôda gente
Faz daquêle covil sua morada.
Louco talvez, talvez um suicida
Cansado dos rigores desta vida!

À noite, entanto, quando sorrateira
A fera, regressando, do alto desce:
— Algo pressente, em cólera se esgueira,
Ventre colado ao chão, chega, recua,
Escarva terra, treme, pára, estua,
E... num urro brutal, desaparece!...

E’ que ali estava a mágica figura
Do índio, vindo lá da célica planura!
Mal não havia pois que resistisse
A presença de tal iluminado...
E foi por sua voz que o Céu bendisse
O novo aldeiamento então criado!”

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